Tuesday, November 17, 2009
Bitches and diamonds are forever!
Tenho andado preguiçosa, escrevendo pouco, e os amigos começam a reclamar (bom sinal!) Hoje aproveito a dica do Guido, com sua historinha da Madona (vejam o comentário ao post anterior) para dar dois dedinhos de prosa.
Começo por uma auto-gozação: uma amiga, que me conhece, superficialmente, há muitos anos, me disse que sempre fui "construtora de sentido". Fiquei saboreando a frase, até descobrir o famoso sentido. Acho que ela quis dizer que eu sempre fui dada a invencionices. Pois quem conhece meu cotidiano parco deve estranhar tanto assunto como eu arranjo. Minha vida é pequena, já disse que vivo pequenininho, mas penso grande. As coisas que eu faço podem parecer desinteressantíssimas para os outros: Um cineminha, uma palestra, idas sem conta a livrarias (um verdadeiro vício), uma caminhada na praia. Viagens, todas as que posso. Muitas horas na frente de um computador, que, na maioria das vezes se escoam em partidas intermináveis de paciência. Pouca TV, leitura, sempre. Não saio muito, mas gosto de sair. Não convivo muito, mas gosto de conviver. Não falo muito, pois gosto de escutar. E, no entanto, estou sempre com algum pensamento pronto para compartilhar. Quando é que penso assim? Não sei. Talvez enquanto jogo paciência. E, então, começo a contar meu fim de semana, por exemplo, e me empolgo. Falo de um livro que li e meus olhos brilham (é o que me dizem), comento uma notícia de jornal com muita paixão. Dou aulas com entusiasmo, tenho coisas pessoais para dizer, ao invés de repetir opiniões, pura e simplesmente. Isso é o que me dizem. Pois eu até me surpreendo por fazer tanto esforço para pensar o que outros andam pensando também. E estou convencida de que, se me entusiasmo, é graças às sementes que os livros plantam em minha sensibilidade: quem pode ler Ana Karenina sem se entusiasmar com a força descritiva de Tolstói? Meu grupinho de leitura está terminando o romance. Mais umas duas aulas, no máximo três, e teremos terminado de ler o livro, que vai nos deixar saudades. Minha proposta de continuação foi um livro de história "As seis mulheres de Henrique VIII" da Antonia Fraser. Bem, dei muitas opções, e elas votaram neste livro. Vai ser minha primeira leitura "não-literária" com elas, e acho que vou gostar da experiência. Pois agora, ao invés de comentar o texto, vamos comentar o contexto. Mas, talvez seja a grande oportunidade de mostrar para elas (e para mim mesma) as diferenças de estratégia de "construção de sentido". Voltamos, então, ao título do post – bitches and diamonds are forever. Enquanto alguns privilegiam os fatos concretos (os diamantes) outros realçam os modos de ser (as pestes). Na união destas duas percepções é que se consegue ter uma idéia de como era uma época anterior à nossa (ou como será uma época vindoura, no caso, por exemplo, de um romance como 1984, que hoje nos parece quase que profético.) Tomara que a leitura deste novo livro seja tão proveitosa quanto as outras já foram.
Tuesday, November 10, 2009
Deveres cumpridos
Aos poucos vou-me organizando, desbastando o mar de tarefas que me ameaça (ainda, ainda!) impiedoso. Tenho sido heróica, acordando cedo, me disciplinando, e até me divertindo um pouco no meio de tudo isso. Pós-moderna, me sinto multifuncional, fragmentada: vou à praia com texto acadêmico, enfrento a "canícula", como diz o Alvaro Costa e Silva, escutando palestras verdadeiramente deliciosas numa biblioteca tranquilinha em Botafogo. Caminho pela areia, molhando os pés nas águas tépidas e razoavelmente limpas do Leblon. Fujo para tomar um sorvete, com uma xerox de artigo para ler. Invento histórias (possíveis ou não), começo os contos e os abandono, dizendo –Depois! E nem me assusto com a possibilidade de o depois nunca chegar. Se acaso não chegar, não será problema meu, convenço-me. Amanhã tenho SESC. Depois de amanhã também. Vou fazer uma coisa que me agrada: ler um de meus contos em voz alta. Acho isso muito gratificante. No princípio não gostava, ficava meio envergonhada, achava que estava sendo "exibida", como diria minha avó, tão furiosamente mineira e vitoriana, desconfiada de todo tipo de "se mostração", coisa que menina bem educada não fazia. Finalmente me dou conta de que não preciso ser tão rígida comigo mesma. Assim sendo, vou feliz falar com o pessoal do SESC, a quem tanto respeito em seu trabalho pelo Brasil afora, quase que um sacerdócio. E me comovo nos eventos que ficam pequenininhos em dias de sol como os do fim de semana passado, quando o Paixão de Ler, tão legal, estava acontecendo. Pequenininhos mas verdadeiros, intensos, belos. Adorei os dois dias que pude assistir. Vibrei, ri muito (escritor quase sempre sabe ser engraçado), descobri coisas. De quebra, ainda assisti a um lindo Ballet: Dom Quixote. Um encanto a transposição do texto para o movimento. E que movimentos! Uma companhia de ballet para ninguém botar defeito. Viva o corpo brasileiro, que sabe os segredos do ritmo e a beleza dos gestos! E palmas também para os figurinos, tão bonitos. O único senão é o local onde o ballet estava sendo encenado – Como aquele Vivo Rio é feioso e desorganizado! Na saída, sempre um tumulto. Faltam táxis, falta praticidade no vallet, falta paciência.
Para terminar, só para deixar vocês impressionados, ontem a Madona veio me visitar. Com seus batedores, trazendo Jesus a tiracolo (ela é muito chic, tem um personnal god), ela veio para minha esquininha, alimentar seu corpo sarado e dar de comer aos olhos esfomeados dos curiosos. Mas, Leblon é Leblon. Nem com todos os batedores ela conseguiu atrair mais gente do que a que costuma se aglomerar na frente do restaurante à espera de lugar. Alguns fotógrafos, alguns cachorros curiosos, que contemplavam o movimento com atenção, e um trânsito um pouco mais lento que o costume. Nada que fosse fora do comum. Fechar o trânsito mesmo só no dia do incêndio, bem aqui em frente, que exigiu exibição de perícia por parte do operador da escada magirus. Isso foi na semana passada, ainda na época das chuvas, e numa era pré Madona.
E agora, que jea coloquei o papo em dia, volto ao trabalho, encompridando os olhos para o mar, e avaliando a possibilidade de adiantar as leituras da tese na praia. Será que dá?
Thursday, November 05, 2009
Da necessidade de boa redação
Tentaram me aplicar um golpe, ontem. Bem aqui, na Rainha Guilhermina, um homem e uma mulher acharam que podiam, com sua história mal-redigida, me levar no bico. A atuação estava bem feita, o casting era estupendo, mas o texto deixou a desejar. Muito. Overdose de clichês. Por isso dizem que menos é mais. Eu conto. Não sei se está escrito no meu rosto que sou louca por histórias, talvez esteja. E, como eu vivo repetindo, tenho o coração mole, escuto as aflições dos pobres de rua, mesmo quando finjo que não vejo. Ontem um carinha me abordou, perguntando um endereço de uma loja de roupas. Eu não sabia, e já ia continuando a andar quando a outra artista se aproximou. Uma mulher falante, de roupa de ginástica, toda decidida, parecendo tentar ajudar ao cara, ao mesmo tempo conversando comigo todo o tempo. Ele se fazia de ignorante, perdido na cidade grande, ingênuo. Ela era toda urbana, bem de vida, generosa e de boa educação. Resumindo o longo golpe, que só foi esboçado, mas não foi concretizado, o suposto comerciante queria ficar com o prêmio da Mega Sena que o tal caseiro de "políticos lá de Brasília", tinha recebido, no valor de mais de 4 milhões de reais. Ele queria me dar cem mil reais se eu o ajudasse, mas eu disse que não cobro por ajuda, mas que queria escrever a história dele… Aí eles perceberam que eu não estava acreditando, e ele disse que queria desistir de ir até a Caixa e que ia voltar para sua Teresópolis e buscar sua mãe, tão analfabeta quanto ele. A mulher tentou continuar comigo, e eu, muito educada, falei para ela que infelizmente não podia ficar e que tinha compromisso, percebendo que ela estava dando cobertura para que o homem sumisse de vista. Ela tinha carro, e ficaria mais fácil desaparecer. Esse golpe é velho, mas eles nunca chegaram a me propor nada (além de o homem querer me dar cem mil e querer beijar minhas mãos, imagine!) e eu vou ter que imaginar um pouco mais a história que vou contar, claro. Como não sou "con-artist" – é assim que chamam os golpistas em inglês, e com razão, pois são verdadeiros atores – não imagino bem o objetivo deles. Me sequestrar? Me propor comprar o bilhete premiado pelo valor que eu tivesse no banco? Descobrir meus dados para depois virem me assaltar? Depois escolho. Acho que, para fins de conto, dá mais caldo um sequestro, claro. Mas depois isso me entristeceu demais! Pois o que eu gostaria mesmo é que a história fosse outra. Que alguém tivesse parado para ajudar uma pessoa que parecia necessitada e descobrisse que o outro era, na verdade, um afortunado. O que eu gostaria era de ter participado de um milagre de alegria, e não de mais uma dessas pequenas misérias humanas.
Para terminar, revelo como descobri, logo de cara, que se tratava de um golpe: o uso dos clichês. Tudo o que o homem falava estava sobrecarregado de vícios de má-redação, mas não havia erros gramaticais. Um analfabeto que não errava o português mas que não sabia o nome de "táxi", falando nos "carrinhos amarelinhos que podem me levar de volta para minha mãezinha", e em guardar seu dinheiro "debaixo do colchão", e ser capaz de dizer 35 mil "reais", com plural corretíssimo e usando reais, ao invés de "conto" (ou mesmo contos, seria mais fácil de engolir), são pequenas incoerências que sinalizaram, para mim, que aquilo se tratava de um texto de um mau escritor. Nunca se deve explicitar muito as marcas, isso é dramaturgia exagerada de comédia, de caricatura. Para dramas realistas, aconselho menos exageros. Tentem assistir um pouco menos de Fallabela, pois ele pode ser bom, mas morreria de fome como golpista. Dou os conselhos, mas espero que os dois não estejam me lendo!
Tuesday, November 03, 2009
O fantasma do Chacrinha

Não sou grande fã de TV, e não assistia o Chacrinha. Só que fui ver o filme e me lembrei por que não via o programa: era cruel. Se hoje me emociono com aqueles aspirantes a cantores, imagine quando era pequenina, com o coração ainda mais mole do que é agora…
O que me impressionou é que o Chacrinha tinha um bordão: o programa que acaba quando termina. E fico pensando na verdade que isso é. Ninguém parece ter melhorado de vida graças ao programa. Os desdentados continuam desdentados, os desafinados continuam desafinados, as chacretes viraram cozinheiras ou faxineiras já que perderam o rebolado. Os gagos continuam gagos. E os bobos estão cada vez mais bobos. O programa terminou e os participantes estão todos acabados. Triste isso.
Para levantar o astral, uma foto (troféu abacaxi?) que tirei no lançamento do livro do Edney Silvestre. Grande sucesso. Mil amigos, dois dedinhos de papo, depois a ansiedade de defender o projeto amanhã me atacou e tive de vir para casa. Melhor assim: vou aproveitar para ler o livro, cuja leitura do trecho feita pelo Tiago (Thiago?) Lacerda não assisti. Aproveitei para me despedir da Tatiana, que parte para a Fliporto e em seguida para o Porto, ou seria Lisboa? Ou para a Gafeira? Para algum lugar na Corte, como disse a Luciana. Bons ventos a levem e depois a tragam de volta, sã e salva.
Saturday, October 31, 2009
Blog de amigo
Vez por outra coloco aqui no texto o nome de um blog que acompanho, mas que não consigo acrescentar na listinha do lado porque esqueci como é que se faz isso. Hoje falo do blog do Marcio e da Brenda
A-DO-RO!
Márcio há tempos que mandava as imagens para os amigos, e agora, mais recentemente, junto com a Brenda, formaram um blog sempre interessante, sempre de bom gosto. A Brenda tem uma galeria ali no Horto, que ainda não visitei (Que vergonha!) mas que muito recomendo, pois sei que só pode ser legal. Há coisas assim, você não precisa ver para crer, nem para amar, pois já sabe, de antemão, que foi criada na mesma sintonia em que você funciona.
Escritores, por exemplo, alguns posso comprar mesmo sem folhear o livro, pois sei que vou gostar. Posso até estar cansada de seu estilo mais particular, ou mais difícil, mas. ao começar a ler, o texto estabelece uma ligação comigo em profundidade, em simpatia, em humanidade.
Agora peço um socorro ao meu amigo Guido: você por acaso se lembra de um artigo interessantíssimo que você me mandou, sobre leitura? Aquele que falava dos novos modos de leitura e como hoje nosso cérebro está desenvolvendo novas sinapses que mudaram nosso relacionamento com o texto? O artigo era longo, e em inglês, e eu adorei e não paro de falar nele com todos os meus amigos, mas quero mandar para eles e não sei onde foi que o guardei. Será que você podia me mandar de novo? E, caso você me mande aqui pelo blog, já vou avisando a todos os leitores que saibam inglês que vocês pre-ci-sam lê-lo. É excelente, e muito esclarecedor, importante para quem escreve e para quem publica, pois descreve um passo da evolução humana. Há gente que discute o termo evolução, e eu aceito esse questionamento. Muitas vezes não progredimos, mas mudamos, pura e simplesmente. E até pioramos, eu acho.
Essa nova maneira de ler acontece, e não sei aonde vai nos levar, e é bom chamar a atenção sobre isso e compreender nossas novas aptidões e possibilidades.
Hoje vou gazetear e fugir para ir ao cinema. Preciso ler, preciso trabalhar, mas estou morrendo de dor de garganta, então vou ser boazinha comigo mesma e me dar um prazerzinho. Os pequenos prazeres possíveis, como disse num cartãozinho para minha queridíssima aniversariante de outubro, Stella. Como já disse aqui antes, sou muito feliz por ter os amigos que tenho, tão especiais!
Friday, October 30, 2009
Detesto imeio edificante!
Não sei quem acha que gosto de receber daqueles imeios que supostamente nos "inspiram" e nos dão motivação. Na verdade, aquelas imagens de pobres sorridentes e abnegados, ou aquelas frases mal escritas me deixam irritada. Será que meus amigos me conhecem tão pouco? Vivo dizendo que não gosto de livro de auto-ajuda, que não leio Paulo Coelho e que não gostei de Perdas e ganhos, ou seja lá qual é o nome daquele livro chato da Lia Luft. Gosto, com muita moderação, de imagens belas, ou de arte, ou de gente. Rio com piadas, mesmo aquelas requentadas, que já recebi muitas vezes. Acho graça em coisas mordazes, um pouco ácidas, pois, como sou de temperamento mansinho e doce, necessito de uma dose de crueldade para me equilibrar. E, graças a essa necessidade é que achei muita graça no filme do Tarantino. Incensado como uma obra prima, ele aguçou minha curiosidade e, como a ocasião faz – não o ladrão– mas a espectadora, outro dia passei na porta do cinema e entrei, e assisti e, sim, gostei. Na verdade, adorei o vilão do Tarantino, um alemão poliglota, educado, refinado. Aliás, todos os alemães eram assim, civilizados. Só o Hitler dele é que continuou estereotipado. Em compensação, os americanos, chefiados pelo Brad Pitt, eram o cúmulo da rusticidade, da barbaridade, em todos os sentidos, até no sentido original do termo: "barbarophonoi". Era assim que os gregos classificavam os Outros, gente que usava uma linguagem que doía em seus ouvidos habituados à musicalidade do seu idioma. E era assim que o Brad Pitt soava, com um sotaque atroz, mesmo para ouvidos americanos. Com eles não havia retórica, não havia sutileza. Eram iguais a robots, programados para uma ação, uma única ação que desempenhavam com eficiência mecânica. E, sintomaticamente, o que o chefe desses autômatos não podia suportar era a falta de rótulo nos outros. Daí a marca. Só assim ele saberia quem era o inimigo, e poderia continuar atacando. Gente, será que o Tarantino é mesmo assim tão esperto? Mas, e isso é certo, ele entende de narrativa, e de cinema. Conta bem suas histórias, mesmo aquelas que não me agradam. Viva o filme, que devia ter sido traduzido com o erro , pois o erro é fundamental. Sei lá, Bastardos Ingrórios, teria sido mais fiel que a pomposidade sem comentário de Bastardos Inglórios. Mas, de tudo, o que mais me fez sentir aquela fagulhinha de felicidade que a gente tem face a algumas coisas que se sobressaem e nos surpreendem, foi a tranquilidade dele em mudar a História em história, assinando o texto. Isso era uma coisa que Hollywood sempre fez, mas dentro de um limite para não acordar a descrença no espectador. Mudavam tudo, de acordo com a interpretação de quem estava narrando, mas mantinham a moldura que sustentava a verossimilhança. Mas, no filme tarantinesco, Hitler morre no atentado, e com esse detalhe tudo se subverte. Temos que reavaliar a guerra, a bomba, todo o resto. Ou apenas rompemos nosso vínculo com a história, e vemos a narrativa como texto a ser analisado, a ser entendido com a inteligência e não com a crença. Valeu, cara! Me edifiquei muito mais com essa tarde no cinema do que lendo a comovente mensagem de que, enquanto eu me queixo de dor na perna, tem gente sem perna que está jogando futebol… Minha única queixa é quanto à qualidade do meu cérebro, mas, segundo esses imeios, eu devia me dar por satisfeita, pois tem muita gente sem cérebro convencida de que pode ajudar os outros a pensar…
Vixe! Tou braba, hoje. Deve ser coisa do signo de Escorpião, que está nos regendo.
Tuesday, October 27, 2009
Vampiros
Passei a noite assistindo a um programa sobre vampiros. Claro que hoje, por falta de uma boa noite de sono, me sinto sem energia, uma legítima vítima dos vampiros noturnos… O que mais me impressionou (tirando os detalhes nojentos de larvas e líquidos) foi o bispo inglês que hoje ainda acredita em vampiros. Lá estava ele, dando entrevistas, com suas suíças enormes, lembrando da vítima que havia salvo nos anos 60 ou 70, sei lá. Ela aparece, ainda novinha, ao lado do namorado, um cabeludo charmoso. Não mostram a moça hoje em dia, mas fiquei com a certeza de que a verdadeira vítima do vampiro não foi ela, e sim o namorado. O rapaz virou um velho mirrado, de cara chupada. A cabeleira continuou comprida, mas ficou ralinha e grisalha, começando no meio do cocoruto, fazendo seu rosto ainda mais comprido, mais desolado. Enquanto isso, o bispo ficou com cara de personagem de Dickens. Mais encorpado, demodé, bizarro. E a moça? Não apareceu. Mas eles garantem que ela foi salva. Ninguém mais apareceu para morder seu pescoço durante a noite, nem para deixá-la amanhecer exausta, com olheiras e corpo lânguido. Coitada. Será que ela foi mesmo salva ou apenas se transformou numa inglesa de meia idade, perdeu sua flexibilidade, os seus olhos escuros e líquidos, e agora ostenta um respeitável e horroroso chapéu, esconde o olhar atrás das grossas lentes dos óculos, e firma seu corpo sólido sobre sapatos abotinados, sensatos? Tenho pena dela e da saudade que deve sentir de suas noites de violentos combates contra o "mal"…
Depois fico pensando em Bram Stocker e em Mary Shelley. Suas criaturas tão poderosas ignoram seus criadores e vivem por aí, em filmes e historinhas bobocas, em documentários, em reinterpretações. Ninguém fala sobre os dois autores. Muita gente nem sabe que foram invenções. Já outros personagens criaram seus autores. Ulisses engendrou Homero, o Quixote presenteou Cervantes com uma provável biografia…
Enquanto isso, bocejo, me espreguiço, e lembro do conselho que a especialista em concursos públicos nos deu esta manhã: caminhe para oxigenar o cérebro. Será que vou? Nada! Vou ler os artigos que selecionei para me preparar para a defesa de meu projeto. Duby, ou Norberto Elias, ou Labriola, ou …
Fui!

